Entre 20 de setembro de 1835 e 1º de março de 1845, o Rio Grande do Sul viveu a mais longa revolta do Brasil imperial: dez anos de guerra que criaram duas repúblicas, mataram cerca de 3 mil pessoas e forjaram a identidade que celebramos — de pilcha e lenço vermelho — em cada Sessão Farroupilha.
Por que a província pegou em armas
No início da década de 1830, os estancieiros e charqueadores gaúchos ferviam de indignação: o charque platino (argentino e uruguaio) entrava no Brasil com taxas baixas, enquanto o charque rio-grandense pagava caro para circular no Império. Somavam-se a centralização do governo regencial e o desejo de autonomia. Em 1832 nascia o Partido Farroupilha — e nas reuniões da Loja Maçônica Philantropia e Liberdade, em Porto Alegre, a conspiração ganhou forma.
20 de setembro de 1835: a tomada de Porto Alegre
Na noite de 18 de setembro de 1835, os conspiradores decidiram: em dois dias tomariam a capital. Na madrugada do dia 20, as tropas de Bento Gonçalves cercaram Porto Alegre, abandonada sem resistência pelo presidente da província. A data virou o marco zero da revolução — e o feriado maior dos gaúchos.
Seival, a República e a prisão de Bento
As vitórias se sucederam até o ápice: em 10 de setembro de 1836, a vitória na Batalha do Seival abriu caminho para que, no dia seguinte, o coronel Antônio de Sousa Neto proclamasse a República Rio-Grandense, com capital em Piratini e Bento Gonçalves como presidente. A reação imperial veio no Combate do Fanfa (4 de outubro de 1836): derrotado no rio Jacuí, Bento foi preso e levado ao Forte do Mar, na Bahia — de onde fugiria em 1837, reassumindo a presidência em 16 de dezembro daquele ano.
Garibaldi, Anita e a República Juliana
Em 1839 a guerra ganhou o mar — e o coração. O italiano Giuseppe Garibaldi, foragido da Europa, juntou-se aos farrapos com seus lanceões; em Laguna (SC), conheceu Anita Garibaldi, que se tornaria a Heroína de Dois Mundos. As lanchas Seival e Farroupilha foram transportadas por terra até a costa, e em julho de 1839 nascia a República Juliana, presidida por David Canabarro. Durou quatro meses, mas eternizou o casal mais famoso da revolução.
Porongos: a ferida aberta
Nem todo capítulo é de glória. Em 14 de novembro de 1844, o Corpo de Lanceiros Negros — soldados negros que lutavam por promessa de liberdade — foi massacrado na Batalha de Porongos, em episódio até hoje cercado de polêmica sobre traição. E o Tratado de Ponche Verde não libertou os escravizados que combateram: parte foi devolvida aos donos. É a parte incômoda e necessária da história — que a Sessão Farroupilha respeita ao celebrar valores como justiça e liberdade.
A Paz de Ponche Verde
Com a chegada do Barão de Caxias em 1842, o cerco se fechou. Bento renunciou em agosto de 1843 (assumiu Gomes Jardim) e, após 12 cláusulas negociadas — anistia geral, incorporação dos oficiais farroupilhas ao Exército imperial e indicação republicana ao governo da província —, a paz foi anunciada em 1º de março de 1845, em Ponche Verde (atual Dom Pedrito). Bento, doente, não estava presente; morreria dois anos depois, em 1847.
Linha do tempo da Revolução
- 1832 Fundação do Partido Farroupilha.
- 1835 18/09: decisão na Loja Philantropia e Liberdade · 20/09: tomada de Porto Alegre — começa a guerra.
- 1836 10/09: vitória no Seival · 11/09: proclamação da República Rio-Grandense · 04/10: derrota no Fanfa e prisão de Bento.
- 1837 Fuga de Bento do Forte do Mar; reassume a presidência em dezembro.
- 1839 Garibaldi e Anita · lanchas levadas por terra · República Juliana em Laguna.
- 1842 Barão de Caxias assume o comando imperial e aperta o cerco.
- 1843 Bento renuncia; Gomes Jardim assume o último mandato da República.
- 1844 14/11: Porongos e o massacre dos Lanceiros Negros.
- 1845 01/03: Paz de Ponche Verde — fim da guerra após 9 anos e meio.
- 1847 Morte de Bento Gonçalves, anistiado.
- Hoje 20 de setembro é feriado no RS — e o motivo da nossa Sessão existir.
“Conhecer a Revolução é entender por que vestimos a pilcha: cada peça conta dez anos de luta por liberdade.”
— Comissão Organizadora
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Fontes desta matéria
Wikipédia — “Guerra dos Farrapos” e “Cronologia da Guerra dos Farrapos”; Brasil Escola — “Revolução Farroupilha”; Mundo Educação — “Guerra dos Farrapos”; Arquivo Público de SC. Imagens: Wikimedia Commons.